Queria não olhar para trás com tanto rancor. Queria não
sentir tudo isso. Sentimento de ansiedade e bipolaridade que estão sendo
cultivados e machucando dia após dia.
Por que tão rápido? Covarde! Mentiu, atirou pelas costas.
Covarde!
Só desejo não mais sentir, não sentir nada. Desejo apenas
acordar em um novo dia e não ter vivido nada disso. Não é ódio nem raiva, é o
asco pela covardia. É a falta de coragem de fechar os olhos e saltar. E eu
saltaria, até dias atrás, horas atrás, minutos atrás. Não vale a pena, não vale
a alma, não vale nem por um segundo levar esse pecado para a eternidade, pois
enquanto me cubro pelas sombras desse acerbo eu temo ver a alegria que rodeia
pelas espreitas do que já foi tão meu.
Já me disseram, o mundo gira, já me convenceram não viver
a dor, ela volta, ela vem em maré viva e me abate todo o dia por não saber
navegar nesse mar, dentro da escura tempestade que choca meu corpo contra suas
pedras ainda estáticas minadas em mim.
Covarde! Meu coração é covarde. Ele teima bater mesmo não
tendo o porquê, ou pra que bater. Ela racha e a cada fenda aberta ele transborda
o pingo de bondade que ainda me resta.
Chega de carregar o peso de ser perfeita
esperando a volta do que nunca foi meu voltar. Chega de me castigar e açoitar
meu corpo por cada descarga de sentimentos sujos, escarrados com o peso de uma
lagrima que deixaram rolar em mim. Chega de parecer forte, de parecer fraca, de
aparecer por ai como se eu não tivesse perdido nada eu perdi. Eu me perdi. Chega!
Crueldade gera crueldade e sou eu quem sente o chute no meu peito por tudo
isso.
Aproveita o voo, asas de borboleta se
desgastam muito rápido com o mal tempo e elas tendem a cair e sem poder voar
morrem de fome, morrem sem ter sua flor para sorver. Prefiro meus pés no chão,
prefiro ver meu corpo se arrastar, se ferir, mas vai cicatrizar e eu vou
continuar de pé sem depender da atmosfera para caminhar.
Essa gente toda errada, lambuzadas por vícios
só vão rir quando você afundar. Irão vender a sua alma no mesmo mercado podre
onde costumam deixar seus corpos expostos, vão sumir tão ou mais rápido quanto
resolveram perdoar. Já vi isso de perto e eu não desejaria nunca ter que ver
seu coração lá.
E eu quis dizer tudo isso apenas pra me
curar. Não me importo se vão destruir qualquer coisa já construída por mim, eu
não preciso de promessas superficiais, de preces adoecidas ao vento. Eu preciso
de sinceridade, de doçura, eu preciso de tudo o que eu achava que tinha antes,
mas mais do que isso eu preciso apenas me curar e o que tiver que ir que se vá,
não preciso de meios termos ou indecisões banais que só atormentaram meu espírito.
Eu não tenho medo do que tudo isso vá causar, eu tenho medo de apenas estar
deixando minha vida jogada com tanta luz desperdiçada podendo dar a outras
pessoas tudo o que está guardado aqui e sendo usurpado, estuprado e violentado
dentro de mim.
Eu quis dizer da forma mais aterrorizante
toda essa sensação de agonizar e mesmo assim continuo tendo leveza em machucar,
por simplesmente não querer machucar.
É hora de deixar de sentir, de abrir o
coração pra vida e ver aquele lírio murchar, a árvore secar, o para sempre a se
desfazer e parar de lamentar e ver esperança em quem nunca viu nada.
É hora de abrir os olhos e voltar pra casa
sem aquelas mãos que um dia chegaram a consertar, ir pelos espinhos e ver as flores
que deram o seu passo para a morte. Quem anulava os indícios de tristeza agora
os anuncia. Hora de deitar sozinha, esquecer de tudo sozinha.
E eu quis dizer tudo isso.
Save your fuckin self
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