Eu poderia ficar na cama todas as
manhãs que eu falo para o meu despertador "ah! não, agora não!" por
não querer levantar, eu sei, mas eu veria a vida passar.
Eu poderia pegar o ônibus direto para
casa quando eu saio do serviço ao invés de ir para a faculdade e encarar mais 4
horas longe de casa pensando que eu poderia estar dormindo, eu sei, mas eu só
veria a vida passar.
Eu poderia continuar me isolando do
mundo pelos medos que passei, pelas pedras em que tropecei por tudo o que já
jogaram em mim, mas seria demais ver a vida passar.
Eu poderia desistir pelos nãos que
tomei, pelas portas em que com a cara dei, pelas intermináveis estradas para
lugar algum – que me deram um lar. Seria muita bagagem desperdiçada para deixar
a vida passar.
Eu poderia chorar, me escandalizar
pelas pessoas que deixei, pelos amigos que me doei – que foram embora –, por
todos que eu ajudei, mas seria hipocrisia deixar a vida passar.
Hoje estou aqui, acordando cedo,
estudando, encontrando pessoas, andando por espinhos, cheirando as flores no
meio do caminho, preferindo os nãos ao deixar a oportunidade para lá, amando,
me entregando, me doando, tudo sem esperar. Hoje estou aqui dando de mim o que
eu não tenho para me dar, mas a vida segue feliz, e hoje se alguém me diz
"desiste", sorrio e digo "não, eu não quero deixar a vida
passar".

